quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A carta



(...)
- Olá, como vai?
- Nada bem, doutor, nada bem. Meu corpo todo dói, durmo mal. Os dedos formigam, os braços agulham. Cansada, muito cansada. Irritada, aflita, ansiosa. Desanimada. A alma se foi.
- Mas senhora, a senhora tem praticado atividade física? Alimentação saudável? Tempo livre para o lazer?
- Estes sapatos baixos caminham do trabalho-ponto, ponto-casa. Sustento o lar, limpo a cozinha. 2 filhos descuidados, um marido sumido. E o pior: ninguém quer me dar a carta.
- Que carta, senhora? INSS?
- Alforria.
(E limpa suas mãos calejadas de graxa e suor)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Retrologar


(...)
- Olá, qual sua idade?
(acompanhante) - A idade dele é 30 anos, doutor?
- E o que esta acontecendo com o senhor?
(acompanhante novamente) - Ele emudeceu.
- Como assim???
- Poizé doutor, há 5 anos ele começou a retrobrocar, sabe? Retrologou.
- Não...
- Falava cada vez menos. Primeiro umas idéias confusas, seguidas por um par de frases soltas, algumas palavras e ... finalmente emudeceu.
- Quanto tempo durou todo o processo?
- Uns 5 anos.
- E outras atividades superiores ele faz normalmente? Calcula? Planeja? Escreve? Lê? Escuta? Entende? Sociabiliza? Ri?
- Sim, doutor. O resto tudo é normal. Só o trabalho... era radialista e precisou mudar.
- De fato. E hoje, o que ele faz?
- Fotografa.
(...)




terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Medicamentos



- Entendo... mas quais são as medicações que a senhora está tomando?
- Um remedinho verde pequeninho assim... sabe?
- Huhum.
- Mais um profam, outro que eu tomo dois de manha, o ibuprofeno, o pra dormir e o antibiótico pra pneumonia que eu tive há 2 semanas... ah: e o verdinho.
- Certo. Posso ver suas receitas?
- Não estão aqui. Devo ir pegar?
- Seria melhor...
(...)
- Estão aqui, doutor.
- Ok. O PROFLAN é um antiinflamatório... Os dois comprimidos são de prednisona que deveria tomar por apenas 5 dias... a senhora ainda está tomando???
- Ué?! Não era pra tomar a caixa toda?
- Não, senhora. Tá escrito aqui: 5 dias.
- Ah...
- O ibuprofeno a senhora vai parar de tomar. Pode continuar tomando a amitritilina... Levofloxacino 500 mg prescrito de 12/12h (???) por 7 dias - deve ser algum protocolo paraguaio...
- Ahhh... Eu não tomei todo o antibiótico. Tem que comprar outra caixa.
- Como assim?
- Tomei apenas sete comprimidos... por uns quatro dias. Uma caixa é mais de 50 reais!
- Mas como a senhora estava tomando?
- De 12 em 12 horas. Um à meia-noite e outro às 06:00 da manhã...
- ??????
- É. De 12/12 horas. Ó: meia-noite, uma, duas, três, quatro, cinco... seis... ihhhhhh. Não dá doze.
- ...
- Peralá... deixa eu contar de novo: meia-noite, um, dois, três, ..., onze. Tinha que tomar o outro às onze, né?
- ...
- Ah doutor, fica tranquilo que eu tomo o remédio direitinho...
- !

(Olhos no olhos, um pensamento curto seguido de uma longa risada)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Remoso



Acompanhante da paciente, há pouco:

- Doutora, ela pode tomar café preto? Não vai estragar a cirurgia?
- Pode, não tem problema.
- Não pode, não. Café é remoso.
- Pode sim, querida. Não faz mal nenhum. Importa que ela coma...
- Ah, não. Vou falar pra ela não tomar!
- ...

Não sabia o que a palavra "remoso" significava... mas sabia que ela vinha acompanhada de um gesto e uma careta.

Por Dra. Fabíola

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Backspace



A vida é irremediável 
- backspace - 
irremissível 
- não... backspace - 
irreparável
- não! backspace -
irrevogável 
- quase... backspace -
inapagável.

Isso! A vida é inapagável!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Anamnese


(...)
- Doutor, escreva aí no prontuário: "Essa é a minha história. Não cabe em palavras."
- Ok.
(...)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Tatuagens


(...)
- Doutor, o senhor sabe da vida, né?
- Acho que sim...
- O senhor estudou, é letrado...
- De fato, o conhecimento é imprescindível.
- Sabe como funciona todo o corpo e tudo mais...
- Mais ou menos, por quê?
- Eu queria entender o mistério da vida. Como faço?
- Como?
- Isso. Como e onde.
- O quê?
- O mistério.
- Do que você está falando?
- Da vida, ué! Dessa incógnita. Já procurei nos vales e colinas, nos prédios e morros. Nos ares, campos e mares. Em filmes e textos. No próximo e em mim. Não me revelam o caminho.
- Não entendo direito do que você está falando, é sobre arte?
- Não, doutor, quero algo além da arte. Além da liberdade. Além da vida! Quero esse negócio que o Ser Humano quer. Uma luta digna, entende?
- Entendi. Sua resposta está em Jesus, na família e no trabalho.
- Vou fazer uma tatuagem.